sexta-feira, 11 de maio de 2012

A transparência das goleadas

Poucas coisas minam tanto o estatuto de grande de um clube como enveredar pelas vitórias morais. Ficar pasmo da vida quando se vê jogadores de equipas pequenas abraçados a festejar empates a zero na Luz e depois ver coisas positivas em derrotas pela margem mínima é fazer um high five à hipocrisia "dá cá um bacalhau minha cabra... uh uh ficaste com a espinha"... neste caso a nossa espinha, que é entregue toda amassada e arqueada em bandeja de ouro debaixo de um sorriso irónico do interlocutor. A vitória moral é o acto máximo definidor de um clube sem ambição, pequeno e falho de objectivos... pronto lá vem agora a lagartada a correr dizer que só falo deles...

É por isto que às vezes é preferível levar uma dose de cavalo do adversário para poder parar para pensar. É reconhecido por todos os integrantes da equipa de 86/87 que essa dobradinha começou a tomar forma no descalabro de alvalade, que é nestes tempos de austeridade, um grande motor de saúde financeira de restaurantes por esse país fora. Toni já afirmou mais que uma vez que foi a partir do atropelamento sofrido aos pés do Unimog Yekini que se iniciou a conquista do campeonato 93/94, tal como abel xavier já admitiu que foi este o momento decisivo para a sua mudança de visual. E no entanto, foi em jogos destes que tudo se colocou em causa, inclusive qual do olhos do Gaspar Ramos é que era estrábico... tenho ideia que era mais o esquerdo que o direito, mas até podia ser apenas ilusão de óptica provocada pela forma de ele falar.

Pensando nos outros tipos de derrota, as da margem mínima, vejo-as serem atribuídas à falta de sorte, ao árbitro, a falhas na finalização, a gastroentrites que impedem guarda redes suplentes de se sentarem no banco, à merda das botas novas que teimaram em saltar durante o jogo, etc. Ninguém assume a perda do jogo por 1-0 ou 2-1 como sendo momento de alterar coisas, varrer o quadro táctico, empalar um ou dois jogadores, pedir ao presidente para de uma vez por todas fechar a matraca quando se está a ganhar, etc.... "todos estiveram bem, jogadores e treinadores... na próxima semana teremos mais sorte"... mas depois não se tem... e continua a não se ter... até que uma goleada chegue para corrigir os erros.

No meio disto, os adeptos começam a ir na onda. Recebe-se jogadores à pedrada quando se levam 5 secos.... perfeitamente justificado, desde que se escolham as pedras de calçada mais aguçadas... e recebem-se os jogadores em festa após derrotas duplas pela margem mínima... mas como criticá-los, foram ensinados assim, apenas estão a ser coerentes com a politica do clube. No final, aqueles que há 1 ano disseram que tinham aprendido com os erros, demonstram gostar de tropeçar neles. O grande momento do ano foram 45 minutos que redundaram numa derrota... porque aqueles que resultam em vitórias são de uma falta de qualidade sem igual e merecem ser atirados para os anais do esquecimento. 

Por momentos penso o que responderia Bella Gutman se no final da época 60/61 lhe perguntassem qual teria sido o melhor momento da temporada. Talvez ele, de Taça dos Campeões às costas, tivesse respondido "a segunda parte com o setubal para a Taça de Portugal, porque foi a estreia do Eusébio na competiçao". Lá está, mais uma goleada a marcar positivamente o curso do Benfica. Será possível ter saudades de uma goleada de fazer saltar tampas de esgotos? Onde anda um celta quando mais se precisa dele...

1 comentário:

Vozes Encarnadas disse...

Nem mais Constantino nem mais.....

Mas isso chama-se povo português... Quantas vezes nesta vida é preciso uma morte para se fazer algo, mesmo que todos digam atenção ainda alguém vai morrer ali. Isto é português.