segunda-feira, 19 de março de 2012

Amálgama de estórias em formato ortopédico

Quando era chavaleco (alfacinhamente falando) daqueles de ter mais Clearasil no trombil do que barba, dedicava-me pouco às leituras. Era rapaz mais dado aos exteriores, divertindo-me em assombrar o bairro com o meu acne a postular-me o frontespício, ou então a impressionar as miúdas com a minha inenarrável avareza ao nível de recursos técnicó-futebolísticos e nisto não estou a abusar, pois ambos os meus pés eram tão decadentes no que à arte do desporto rei diz respeito que quando me quis dedicar ao pontapé na bola com idade de infantil, o meu treinador (muito perspicaz, diga-se de passagem) não hesitou a colocar-me à baliza.... e eu tinha na altura uns bem medidos e esticados 1,25m, que foi a altura que constou no meu BI até ao 10º ano, o que nem era grave pois eu pouco tinha crescido entretanto.

O desflorar da minha intelectualidade literária deu-se quando os meus pais, sempre atentos me ofereceram o livro "Benfica, O Vôo da Águia" de Carlos Pinhão (o pai da D. Leonor) e Manuel Dias (talvez pai de alguém que eu não conheço) que é coisa tão avançada na idade que o prefácio é do nosso Presidente João Santos, até porque na altura ainda o LFV era homem das borrachas e deveria ter o mesmo bigode que eu. Em poucas palavras, e para os analfabetos e incultos que ainda não o leram, é um livro sobre a história do SLB e sobre a temporada de 88/89 na qual abarbatamos espectacularmente, como é nosso apanágio, o Campeonato, a Supertaça e a Bola de Prata através de... Vata Matanu Garcia. Entretanto já li e reli o livro centenas de vezes e não consta que algum dos 16 golos tenha sido com a mão... o dentuças estava a guarda-lo para a bernardette.... e eu tudo bem com isso óh amigo do Lufemba.

Ora, aprendi eu a ler Benfica através deste livro e acima de tudo ler Benfica para mim passou a caracterizar-se, mais ou menos, pelo primeiro parágrafo do excelso Carlos Pinhão. Diz ele (vou citar, mas aviso já... esqueçam a bibliografia no fim) no capitulo "Estória da História do Benfica": «foi Prósper Merimée que disse "das histórias só me interessam as anedotas". Entenda-se os episódios marginais, o pitoresco, a fofoca (...) Para rimar, as estórias (...) Aprendi com as minhas filhas a contar estórias com um ponto aumentado e eu dizia "isso não foi bem assim" e elas "pois não pai, mas assim é que tem piada" e era e tinha e tem». 

Aparte este último ponto, do qual vou ficar impacientemente a aguardar que a D. Leonor Pinhão, graças a um qualquer acidente cósmico derivado daquelas explosões solares que parece andarem a atrofiar as informáticas, incluindo o ipad do sá pinto, sem querer caia neste espaço internáutico e me confirme a sua veracidade, foi com estas palavras do ancião da família que mais e melhor terá estoriado o SLB que eu passei a interessar-me mais pelo pitoresco do que pelo verdadeiro. Reparem, o que será mais interessante: saber quantos soldados aliados pereceram no Dia D ou saber quantos bezanos havia no fuhrerbunker? Quem matou Kennedy ou em que estado ficou o vestido da Jacqueline? Saber o resultado do pastilhas do lumiar - cska moscovo ou saber quantos litros de lágrimas foram vertidos pelos lagartos?

Acontece que o meu gosto pelas estórias da história não se aplica apenas ao SLB, aprecio também as dos outros, mesmo sabendo que no que aos nossos 2 rivais diz respeito, a estória é no fundo a sua história, isto claro se levarmos em conta a definição de Carlos Pinhão "o pitoresco, as fofocas...as anedotas". Contudo, se no caso do pastilhas do lumiar, as "anedotas" são mesmo o que irá constar dos livros para a sua eternidade, pois tudo o que eles fazem é deliciar-nos com elas, no caso dos corruptos estas serão colocadas na sombra a fim de dar maior realce aos números em vez do meio pelo qual os mesmos foram atingidos.

Quisesse alguém pegar numa caneta e papel e a estória corrupta andaria mais ou menos á volta de gajas nuas com chicotes a correr atrás do jacinto paixão em louca badalhoquice pré-jogo; da estranha tatuagem facial do calheiros por este se ter esquecido de tirar os óculos escuros que qualquer invisual utiliza diariamente, enquanto banhava o corpinho no sol de Copacabana; das calvas partes pudibundas de uma madame com uma pala no olho e uma perna amputada por gangrena, repentinamente reflorestadas pelo bigode do donato ramos; do drama familiar vivido no seio dos duarte de braga devido às repetidas infidelidades do patrono, felizmente resolvidas por conselho de alguém cuja experiência no tema das infidelidades nunca poderá ser colocada em causa; ou a obsessão doentia de uma agremiação pelo Maior Clube, que levou em tempos ao consumo de barbitúricos em doses quase cavalares por parte do seu líder a fim de curar uma depressão originada pela impossibilidade de sonhar com o SLB durante 2 a 3 semanas.

No fundo a elaboração de um almanaque de estórias corruptas impunha-se mais para beneficio do Benfica do que para benefícios apenas históricos. Digo isto pois na Luz parece olvidar-se que a matéria que move aquela gente é o ódio pelo vermelho, tal como o que movia os Germanos era o ódio pelos Romanos e aqui a comparação não é atirada para o ar: bárbaros e selvagens que odeiam os civilizados... a história da humanidade, a estória do futebol conterrâneo. Portanto, em vésperas de mais um confronto com eles, já era altura de nos deixarmos de bater bola falada com tipos com linguagem primitiva. Isso é encher-lhes as paredes do balneário. É importante que se relembre que estamos a falar de alguém que numa época em que tudo conquista, elege como melhor momento... uma vitória contra nós. Mas aqui são eles a apagarem a sua história para sublinhar uma pequena estória...

2 comentários:

mrmg disse...

Vamos apoiar o nosso clube

Constantino, gosto mesmo da tua construtividade.

Parabéns de um admirador.

http://aminhachama.blogspot.pt/2012/03/avram-noam-chomsky-renomado-lingista.html

Constantino disse...

mrmg,

Agradeço a confiança, por muito que seja original alguem ver alguma coisa de construtivo no que eu faço. Os meus pais iriam achar essa opinião deveras curiosa, digo-te já. A fama de "tractor" persegue-me desde imberbe idade e talvez seja essa a razão de eu não ter deixado herança alguma na caixa de brinquedos para o meu irmão mais novo.

Abraço